I República e a Guerra

Depois de narrar esta enormidade da justiça de França e doutras considerações, exclama:

“E posto que aqui vim preciso será que vos diga, senhores jurados, para que o compreendais, quão profunda deve ser a minha emoção: o verdadeiro culpado neste processo, se algum há não é meu filho: sou eu.

Eu que há vinte cinco anos combato por todas as formas as penas irreparáveis; eu, que sempre tenho defendido a inviolabilidade da vida humana. Esse crime cometi-o muito antes de meu filho. E denuncio-me, senhores; cometi-o de todas as circunstâncias agravantes: com premeditação, com tenacidade, com reincidência.

Sim, declaro-o; esse resto de penalidades selvagens, essa antiga e odiosa lei de Talião, essa lei do sangue pelo sangue, combati-a toda a minha vida, senhores jurados.

E enquanto no meu peito houver alento, combatê-la-ei com todos os meus esforços, como escritor; com todos os meus atos e todos os meus votos, como legislador.

Eu o declaro (e disse estas palavras estendendo o braço para Cristo que estava no fundo da sala) ante essa vítima da pena de morte que aí está, que nos vê e que nos ouve! Juro-o ante esse patíbulo em que, para eterno ensinamento das gerações; há dezanove séculos a lei humana pregou a lei divina!

Isso que por meu filho foi escrito, escreveu-o ele, porque eu lho inspirei desde a infância; porque, ao mesmo tempo que é meu filho pelo sangue, é meu filho pelo espírito; porque quer continuar a tradição de seu pai!

Eis aqui um delito estranho e pelo qual me admiro que o persigam”.

E termina o seu brilhante e impressionante discurso voltando-se para o réu, para o filho, dizendo-lhe com dignidade:

“Filho meu: recebes hoje uma grande honra: foste julgado digno de lutar, de sofrer talvez, pela santa causa da verdade. De hoje em diante vais entrar na verdadeira vida viril da nossa época, quero dizer, na luta pelo justo e pelo verdadeiro. Orgulha-te!

Tu que não és mais do que um obscuro soldado da ideia humana e democrática, estás sentado nesse banco que já foi ocupado por Béranger e Lamennais.

Sei que és inquebrantável nas tuas convicções.

Sejam estas as minhas últimas palavras: se tiveres necessidade de um pensamento para afirmar-te na tua fé no progresso, na teia crença no porvir, na tua religião da Humanidade, na tua execração pelo patíbulo, no teu horror às penas irrevogáveis e irreparáveis, pensa que estás sentado no banco em que se sentou Lesurques”.

Que belo exemplo de dignidade humana há nestes gritos mistos de amor e de revolta!

E como eu sinto neste momento a inspiração sublime daquela palavra quase sobrenatural!

Para terminar, deixai-me ainda que vos diga a opinião do nosso último carrasco ao ter conhecimento da abolição da pena de morte.

É curioso. Disse ele cheio de contentamento:

“Felizmente a civilização do século arrancou do nosso Código este negro artigo da pena de morte, e esta conquista da civilização, que a tenaz perseverança da filosofia alcançou gloriosa, depois duma porfiada lata, já não pode retrogradar em Portugal, e parabéns dou a mim mesmo de não estar já ameaçado de cometer homicídios, de sentir gotejar sobre a minha cabeça, nestes meus já bem cansados dias, o sangue, que uma lei draconiana fazia espadanar no cadafalso”.

Isto dizia o carrasco, que, pelo visto, era autómato no seu mester, mão tendo nada alma de verdugo. (Apoiados).

Termino, Sr. Presidente, dizendo aqui o que lá fora já bradei noutra tribuna onde também tenho voz:

Em Portugal não se encontraria hoje um carpinteiro capaz de erguer uma forca; nem um serralheiro capaz de fabricar um cutelo de guilhotina; nem um homem, fora das paixões loucas e delirosas da política, capaz do ofício fatídico de carrasco; nem um Chefe de Estado capaz de sancionar um assassinato legal, uma sentença criminosa.

Disso orgulhosamente convencido, continuarei a bradar com toda a religiosidade: guerra à guerra! ódio ao ódio! morte à morte! vida à vida! (Apoiados).

Disse.

O orador foi muito cumprimentado.